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POLÍTICA E ATUALIDADES
GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO


Justiça no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, entregue esta semana! ESTÔMAGO, um filme genial de Marcos Jorge, foi o grande vencedor (Filme, Roteiro Original, Diretor, Melhor na votação do público) da noite. Inteligência e humor de primeira! Pena que o melhor ator não foi para o impecável João Miguel (ganhou Selton Melo, por Meu nome não é Johnny - grande desempenho, como hábito, mas Miguel merecia muuuito mais!). Excelente que reconheceram o Babu Santana como melhor - e bota melhor nisso - coadjuvante. Gostei também das lembranças ao "Ensaio sobre a Cegueira" (fotografia, maquiagem e arte) do Fernando Meirelles, sobre o livro do Saramago, filme que merecia sorte melhor no mercado, mas que taí, em DVD pra quem quiser encarar uma história densa (não é pra comer pipoca), profunda, metafórica e brilhantemente dirigida e atuada.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 11h26
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MARCHAS SUICIDAS

MARCHAS SUICIDAS – UM NÃO À MARCHA DA MACONHA! Denilson Cardoso de Araújo Está programada para o início do mês de maio a versão 2009 da “Marcha da Maconha”. No ano passado, das 10 capitais brasileiras que acompanhariam o movimento internacional, apenas uma a realizou. Nas demais foi proibida por liminares obtidas na Justiça pelo Ministério Público. Muitas cidades, entretanto, viram atos públicos “pela liberdade de expressão”. Importantes lideranças (OAB, ABI, Juizes pela Democracia) se manifestaram contra a posição do Judiciário. Cansado de observar mães desesperadas, famílias destroçadas e jovens sem futuro, presentes na memória muitas militâncias (miúdas, mas militâncias!) por direitos e liberdades, vi-me na obrigação de tentar entender a questão da liberação da maconha sob a ótica dos direitos e garantias. E para quem trabalha cotidianamente com as mazelas decorrentes da drogadição cada vez mais precoce, parece uma irresponsabilidade que se pretenda realizar um evento com os moldes da Marcha da Maconha. Não há, absolutamente, nada de progressista no discurso mais radical pró-liberação ou descriminalização de drogas. Qualquer visão que assim defenda, é necessariamente parcial e redutora das mazelas conseqüentes. Os economistas imaginam poupanças ao Erário. Especialistas em segurança pública supõem a redução da criminalidade. O pessoal da área médica pretende impedir a subnotificação dos problemas causados pelo abuso de drogas. Piedosos pretendem trato mais humanitário ao dependente químico. Entretanto, por mais que se tente provar o contrário, a experiência da liberação das drogas não deu certo nos países em que foi tentada. Não reduziu a criminalidade, incrementou o consumo e ampliou o mercado para drogas mais pesadas. No caso da Holanda, fomentou o narcoturismo que trouxe grandes problemas à população. As cidades que fazem fronteira com outros países da Europa, no ano passado, começaram a pressionar para revisão da política de liberação. Cansaram-se das invasões de finais de semana e dos tumultos provocados pelos muito peculiares narcoturistas. Aliás, na Holanda, caminha-se para muitos revisionismos da tradição liberal que, após legalizar a prostituição, viu subir a decadência de áreas nobres de Amsterdã, bem como elevar-se o tráfico de escravas brancas; que após ser tolerante com sexo, viu crescer a força de partidos políticos pedófilos, que defendem o absurdo “direito de escolha da criança”; que, extremando as lutas pelos direitos de minorias, viu, na mesma praça, ser proibido caminhar com o cachorro sem coleira, mas ser possível praticar, sem repressão, sexo noturno ao ar livre; que, no afã de manter-se coerente com a liberalidade já desgastada, e ao mesmo tempo, cooperar com os esforços pela erradicação do tabaco, criou o mundo surreal em que é possível fumar maconha em seus cafés, mas ser expulso pelo consumo de cigarros comuns! É bom que seja ressalvado que não defendo a punição do usuário, nos moldes antigos, em que ele recebia prisão precedida de extorsão policial ilegal e humilhante. Acho um avanço que o usuário receba medidas educativas, mas corroboro a manutenção do porte na esfera criminal. O fato de ser questão também de saúde pública, não autoriza o abrandamento completo das formas de combate a um mal efetivo cada vez maior. Pesquisas realizadas na Europa dão conta de que a esmagadora maioria dos europeus é contra a repetição da experiência holandesa. Plebiscito recente, na Suíça, deu vitória à política repressiva. Após um período breve de maior brandura, a Inglaterra reclassificou a maconha como droga pesada. A última reunião da ONU sobre o tema do combate às drogas, em março último, embora com muita polêmica e protestos, não só rejeitou a política de redução de danos, como manteve a recomendação de repressão ao tráfico e ao consumo das drogas. A liberação para fins medicinais, no Canadá e nos Estados Unidos, como provaram reportagens esclarecedoras do jornalista Gilberto Dimenstein, resultou apenas em aumento do mercado de receitas e laudos médicos, que passaram a substituir determinados armamentos no bolso dos traficantes. A experiência portuguesa de liberar drogas para consumo próprio, estabelecendo uma cota diária de porte autorizado, apenas aumentou o mercado varejista, com os traficantes sendo muito zelosos de portar apenas a quantidade permitida. Em Portugal, as casas legislativas da Ilha da Madeira e de Açores, movimentaram-se para aprovar leis próprias, retomando a criminalização abandonada por lei federal, o que, certamente, terminará em discussão sobre constitucionalidade. Fala-se muito no exemplo americano, onde a política repressiva não teria alcançado êxito em reprimir o consumo, já que lá se observa a maior população de usuários. Mas nunca se faz avaliação do quanto ocorreria de aumento nos níveis de drogadição americanos caso viesse a liberação. O EQUÍVOCO É IMAGINAR QUE A PROIBIÇÃO É QUE PROMOVE O CONSUMO. NÃO É! Como diz o Professor Içami Tiba: “quem é feliz não usa drogas”! Patologias à parte, a busca pela droga é incrementada pela profunda insatisfação que aflige a humanidade, e a população dos Estados Unidos, em particular! A incerteza de um mundo sem empregos e oprimido pela ameaça das catástrofes ambientais; à deriva pela falência dos esquemas familiares tradicionais, pela falta de referências religiosas, pela quebra das utopias políticas, pelo excesso de informação trazido pela massificação midiática, pelo condicionamento de mentes e hábitos imposto pelo mercado publicitário; a prevalência do ‘ter’ sobre o ‘ser’ e a incessante busca de prazer imediato e vazio; são alguns dos fatores que impulsionam ao desconforto de si e à infelicidade, esta ampla ante-sala da busca por compensadores químicos. Nossas crianças e adolescentes sofrem, cada vez mais abandonados à própria sorte, para serem criados pela mídia robotizante. Tudo porque, seguem as famílias, sem noção de seu papel de referência e autoridade, com casais derrotados pelo egoísmo do conforto pessoal de cada parceiro e pela indisposição ao sacrifício em prol da harmonia relacional, além da ditadura da busca incessante do prazer individual e supremo. Assim remetemos os casamentos à duração média, verificada pelo IBGE no Brasil, de apenas 10 anos. Por isso, as escolas tornaram-se barris de pólvora, recebendo a ingrata missão de, sem recursos, desentortar gente cuidadosamente entortada em casa. Neste quadro, é uma temeridade que, em um terreno assim fértil para desgraças, se permita a semeadura da cannabis. Ao contrário do que se pretende, maconha mata sim. Se não pela overdose, apenas tecnicamente possível, morre-se pelo efeito “porta de entrada”, que leva às drogas mais pesadas; morre-se pela diminuição do senso crítico e da disposição para os virtuosos bons combates da vida; morre-se pelos efeitos diretos na saúde, dentre os quais, diversos tipos de câncer, inclusive, de bexiga e de pulmão; morre-se pelos danosos efeitos cerebrais que, além da destruição de neurônios, provocam diminuição da atenção e a possibilidade de graves acidentes de trânsito e de trabalho. Mas, acima de tudo, morre-se como humanidade, porque a maconha, lembremos, distrai das lutas e inabilita às reflexões necessárias a atitudes de combate à injustiça. Não esqueçamos que Gilberto Freire registrou que os senhores das senzalas brasileiras eram coniventes com o consumo de maconha pelos escravos, porque, assim, estes ficavam mais tranqüilos e inaptos a rebeliões. Logo, não pode ser progressista uma proposta que esteriliza combatentes do progresso e da liberdade. Não pode ser progressista uma proposta defendida reiteradamente pelo mega-especulador George Soros e pelo jornal neo-liberal inglês The Economist. Chega ser feio ver militantes egressos dos anos 60 não perceberem o envelhecimento – maior do que uma ruga de Mick Jagger – do discurso que dava charme ao terceiro elemento do discutível paraíso de sexo e rock’n roll, que hoje se tornou martírio. (CONTINUA NA POSTAGEM ABAIXO)
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 16h41
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MARCHAS SUICIDAS - II

(CONTINUAÇÃO) Muitos dos defensores da liberação da maconha se sustentam em argumentos de filósofos e pensadores como Stuart Mill, John Locke e Milton, por exemplo. Mas se as suas obras forem lidas com atenção, se verificará que nenhum deles defende liberdades absolutas. Liberdade absoluta não existe. Assim tem decidido o Supremo Tribunal Federal, quando afirma a relatividade dos direitos. Liberdade absoluta se torna ditadura, já que apenas alguns a possuirão ou se torna o caos, já que liberdades absolutas para todos redundarão em conflitos aniquiladores. Aqueles autores, inclusive, ao contrário do que muitos pensam, jamais admitiram a liberdade de expressão completa, outra ilusão dos falsos progressistas. Montesquieu, por exemplo, admitia que se dissesse tudo em praça pública, exceto que se pregasse a destituição do governo legitimamente constituído. Stuart Mill, embora admitindo a possibilidade da embriaguez, desejava que se impedisse a propaganda dos produtos que a tanto pudessem levar. John Locke não admitia a propaganda do ateísmo. John Milton não queria que se desse voz pública aos católicos. Cada pensador, em sua época, condicionou o exercício das liberdades a uma fronteira em que não fossem atacados elementos estruturantes daquela sociedade à qual se dirigiam. Por isso, numa sociedade oriunda do Iluminismo, Mill não queria o aumento do número de pessoas incapazes de reflexão racional. Locke, numa sociedade baseada em preceitos religiosos, não dispensava a fé como pilar do convívio humano. Aliás, mesmo pensamento de Tocqueville, que ao analisar as virtudes da democracia americana, viu como indispensável ao funcionamento do sistema, o freio moral oferecido pelo puritanismo, como elemento regulador das liberdades a serem praticadas. Milton, num país que se estruturou em torno do combate ao catolicismo, via como retrocesso a permissão de voz ao sistema religioso papista, que tanta opressão provocara. Nos tempos contemporâneos, um exemplo desse cerceamento ao que possa ferir elementos fundantes da sociedade, é a vedação à propaganda do nazismo. A experiência do Holocausto e os milhões de mortos civis e militares na sangrenta guerra provocada por Hitler e sua megalomania histérica, deixaram a humanidade ressabiada. No Brasil mesmo, a lei contra crimes raciais proíbe a propaganda do nazismo e há julgados célebres do nosso Tribunal Maior em que foi cerceado o direito de expressão, impedindo-se a publicação de livros que divulgavam as propostas nazistas. A liberdade de expressão é limitada também quando se impede que produtos para adultos sejam divulgados a menores de 18 anos, vedação absoluta, que não pode ser vencida nem mesmo pelo poder familiar. É que a proteção à infância e à juventude é esteio constitucional do Estado Democrático de Direito Brasileiro, que reconhece as peculiaridades da criança e do adolescente como seres em formação, merecedores de cuidados e para quem se exige não serem expostos a influências nocivas ao seu desenvolvimento. Logo, se a maconha provoca graves danos à saúde, se não é uma proposta progressista, se temos uma sociedade que estimula irresponsavelmente a procura por compensadores químicos, se não é com anestésicos que resolveremos os cancros morais da humanidade, se a dignidade da pessoa humana, esteio da civilização, é atacada pela drogadição, se a liberdade de expressão não é absoluta, a “Marcha da Maconha” deve ser proibida. Acresço, finalmente, o argumento mais simples e, sem dúvida, o mais importante. A lei proíbe a propaganda ou divulgação de substâncias que possam causar dependência química, a menores de dezoito anos. Os Juízes da Infância e da Juventude, quando concedem alvarás para eventos, devem zelar pelo cumprimento dessa ordem. Propagandas televisivas de cerveja, por exemplo, só podem ser exibidas a partir de determinado horário, visando impedir a assistência de crianças. Logo, ainda que a pretexto de, meramente, abrir debates sobre a liberação das drogas, não é razoável que se permita a caminhada de pessoas que, como ocorreu na marcha de 2007, no Rio de Janeiro, poderão, não só estar defendendo a maconha, como, ainda, afirmando em cantos de guerra “Eu sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor”! E, ainda por cima – como, parece, voltará a ocorrer este ano - utilizando máscaras de personalidades que usam, usaram ou defenderam o uso ou a descriminalização do uso de maconha. Máscaras de FHC, Sérgio Cabral, Michael Phelps, Marcelo D2, dentre outros, já se encontram disponíveis para download na página do Coletivo Marcha da Maconha. Quem sabe criamos também uma página onde possamos colocar as máscaras das mães desesperadas, dos pais aflitos, dos garotos desdentados, dos jovens de cabeças estouradas, com aqueles olhos embaçados dos desesperançados, ou com a pequena face de tragédia cruel dos meninos e meninas que se prostituem na Cracolândia! E daí, uma inusitada caminhada em sentido contrário, com essas esfarrapadas máscaras de sofrimento, se encontraria com a saudável pequena burguesia mascarada que afirma estar pedindo o fim da “guerra aos pobres”! E isso quando se sabe que os mais altos índices de aprovação às políticas de descriminalização ou liberação de drogas não se encontram nas classes menos favorecidas – que esmagadoramente rejeitam tais propostas - mas sim nas classes abastadas. E, neste embate, fico com os rappers Gog, Rappin Hood e MV Bill, que já se manifestaram pela prioridade de liberar-se antes o feijão e a escola, para só então tratar-se da questão da maconha. Que os debates se travem no âmbito universitário, nos auditórios do Congresso Nacional, nos Tribunais, em teses e debates nas publicações – e sempre sem a presença de menores de idade! Mas que não se permita a propaganda – ainda que indireta, sob a forma de defesa da rediscussão da lei – de produtos que levam desgraça aos lares brasileiros, na rua, à beira das praias e praças onde as famílias se reúnem. Enquanto escrevo este artigo, estamos encaminhando à internação socioeducativa um garoto de 13 anos, viciado em crack. A mãe desempregada, grávida precoce, de família desfeita, miserável, chora, com o seu outro filho ao colo. O menino que desce para a crueldade de um presídio juvenil, porque o Estado não fornece outra ferramenta para solução de seu caso, começou usando maconha misturada com crack, o famoso “mesclado”, que já assombra as periferias brasileiras. O abismo está próximo. A partir de certo ponto, certas marchas de uns, viram o suicídio de todos. ***
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 16h39
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PORQUE O BIGBROTHER ENFRAQUECE O ESTADO DE DIREITO

As dificuldades que a sociedade brasileira enfrenta costumam ser analisadas por microscópio, isoladamente, sem a conexão que as sustenta, sem as causas que as provocam. Por isso é que, às vezes vista a doença, não se descobrem os germes da sua ambiência. Sem visão mais ampla, sem o telescópio que liga Saturno às suas luas, pode passar despercebido aquele elemento que parece menor, mas que cria um traço cultural decisivo e determinante de comportamentos hostis à legalidade, ao comportamento ético, à postura fraterna.
Se o Direito tem abstrações, tem concretudes. Se tem norma e valor, tem fato, dizia Reale. Muita norma padece de raiz na realidade. E muita realidade, mudada em piora, abandona a boa norma que antes produzira. Quer secar uma planta? Envenene sua terra! É o que, aos pouquinhos, vai acontecendo na sociedade contemporânea, com o arbusto do Direito, que um dia já foi árvore. Chamo a atenção a seguir para um fato, uma coisinha, diriam alguns.
Nestes dias surpreendi nas ruas a superação tanto do debates sobre o final da novela A Favorita, quanto das discussões em torno da Guerra no Oriente Médio. Surgiu um assunto novo: Começou o BBB! Aquele programa que, com perdão das más palavras, alguns intitulam de "bigbundas"... ou o "bigbrocha"... o "bigbródi"... o "bêbêbê"... esse terrível bê-á-bá, essa cartilha de construir no Brasil uma sociedade rasteira. Vejamos.
Não leiam este texto como comentário sobre o atual programa da TV Globo. De reality shows, me bastou, bicar episódios de Casa dos Artistas, naquela esperteza em que o Silvio Santos driblou a Rede Globo plagiando o programa da Endemol descaradamente. Mas era novidade e o Supla, uma figura. Quando veio o primeiro Big Brother Brasil, da Globo, vi que era mais do mesmo. Nunca mais perdi tempo.
Trata-se de pseudonovela de pseudo-realidade com atores medíocres, com os mesmos personagens de sempre, e aqui rogo novamente o perdão do leitor pela ênfases na descrição: a boazuda vagaba, a gostosa santinha, o esquentadão sarado, o sábio gente boa, o crianção chato, o diferente discriminado: gordo, negro, gay ou ancião... E... o indefectível Pedro Bial, claro, que ele tem que exercitar também seu tão-lento dramático de desistente poeta.
A filosofia é: -finja! Seja artificial, viva uma fantasia, faça de conta que é altruísta, afinal... "é um jogo", né? E isso justifica tudo. Conchavos, namoros, paqueras, traições, edredons, confessionários, ficar de quatro em frente às câmeras, pra mostrar o tamanho do "talento" e sonhar com a capa da Playboy de dezembro, ou da G de fevereiro, quem sabe? É um jogo. Resta saber quem é a "bola".
Aquilo é um misto de balcão de açougueiro com as carnes expostas, com exibicionismo calculado para o voyerismo eletronicamente cultivado. Crises ridículas, desavenças de pulgas, viram manchete... Espie à vontade... é a senha! E há gente que assina canais que transmitem aquilo 24 horas por dia! Quem é natural, sendo "espiado à vontade"? Onde a verdade num ser, o "BBB", que assim passam a se chamar os membros da confraria, que é um artefato eletrônico, alegórico,audiovisual?
Quantos já viveram aquela situação de ir ao zoológico, doidos pra mostrar a imponência do mundo animal para os filhos e dar de cara com um leão modorrento babando deitado na sombra, ou com uns tigres escondidos num canto distante. Isso é realidade! Vai ficar 24 horas acompanhando? Bom, aí, se cabe ibope, o tratador é orientado a mudar a dieta pra deixar o animal mais esperto, até deixá-lo com fome pra aguçar seus instintos predadores, ou dar-lhe umas espetadas pra ele desfilar sua África miserável pela jaula. Agora, se o animal é aparentemente racional, tipo humano, o tratador-emissora recomenda que andem sempre com os microfones (exceto no banheiro, por favor!), que se exibam para as câmeras, que inventem draminhas e promovam escaramuças, que se atraquem em pequenas disputas para diversão do público olheiro. Mais ou menos como parece ocorrer nas cabines de sexo em que uma mulher numa vitrine, se despe e geme profissionalmente seus falsos prazeres. Há pornografia, lá e cá. Toda venda do corpo sem afeto é prostituição. E a pornografia é a propagação da prostituição. No BBB vendem-se corpos, sem afeto, e o programa os divulga.
Sabendo-se a televisão como lançadora de moda e comportamentos, isso já deveria nos preocupar.
Mas há outro aspecto interessante. Aquela "Casa" é um criadouro de celebridades. Somos um país cuja história oficial - até que resgatemos aos seus muitos méritos, Pedro II e João Cândido, por exemplo - nos deixou sem nobreza ou heróis. Como não podemos falar mal do Príncipe Charles ou bisbilhotar a Duquesa de York, temos... "celebridades"! Como não mandamos gente à Lua, temos... "celebridades"! E precisa-se delas à farta, porque o exercício do mandato fugaz de celebridade é breve, bem menos que os 15 minutos de Andy Warhol. Um suspiro. O mercado pede mais. Sempre mais. Dão-se, a personalidades enfadonhas como aquele "Alemão do BBB", ares épicos, da mesma forma que se alimentam gansos à força pra extrair patê. Da mesma forma que se bombam aves para que tenham mais carne branca. Afinal, não se criam rãs, peixes, crocodilos, porcos para abate? O pessoal fica ali, em ambiente controlado, temperatura monitorada, alimentados, tratados... (E bem tratadíssimos, que a responsabilidade civil está aí mesmo!). Como em todo rebanho, alguns dão arroba melhor, outros menos, mas tudo serve ao mercado de instantâneas celebridades. BBB é como boi, dele tudo se aproveita.
E a telinha está lá, disponível, com suas tantas câmeras, para a maquiagem que a eletrônica proporciona. Ver a vida real não importa. Importa ver a vida supostamente real que, pela telinha, embora ficta, parece mais autêntica Ou mais divertida. Ou melhor maquiada, sei lá... Daí aquele ser medíocre, que nada fez nessa vida que mereça sequer um monossílabo numa nota de pé de página nos diários do universo, quando eletrônico se torna, convertido em feixes de elétrons que rebatem nos telões das TV's, adquire magia. Assim surgem Sérgios Malandros. O chato comum que se torna pitoresco e acaba virando... celebridade!
Talvez seja o encanto com a criação do criado, porque o homem criou a televisão, máquina de criar ilusões. O homem, ser criado, que cria um boneco de barro e o adora como arremedo de deus, quando Deus, este sim, não cabe em bonecos ou barros, posto que é o Criador. Por isso, a maldição bíblica aos idólatras. Porque é ridículo. Maravilha-se a pobre formiga que se descobre capaz de cortar uma renda na folha. Mas se esquece de olhar a maravilha-formiga que é ela mesma, maravilha divina, a olho nu, vivenciada e acontecida.
Você que é fã do programa, me desculpe: tanta gente mais interessante, aí do seu lado! Olha bem, no sentido do drama comum e frugal, o big brother acontece aos seus olhos diáriamente. Só que as pessoas estão aí do seu lado, com seus achaques, gemidos, dores, mau hálito, perfume, testa brilhosa de suor... nada limpo ou ajeitado pela eletrônica. Na vida real é mesmo tudo real. Mundo real. Gente real. A casa delas não tem piscina bacana.
Mas é preferida a matrix da caixinha eletrônica. A tentação funciona, fazer o quê? As pessoas gostam de se deixar enganar. Num tempo de simulacros, é só mais um artifício. Fazer do que já nasce com script e personagem, uma aparência de vida surpreendente, quando na verdade aquilo é previsível vida, pré-fabricada pra garantir os ibopes necessários. Nada mais. Por isso os shopping-centers ganham das lojas de rua. O mundo lá dentro é asséptico, sem mendigos, sem pipoqueiros, camelôs, acidentes, bueiros. É falso, mas o povo prefere. E o shopping-center é uma ética, ao final. A ética da exclusão, naturalmente. A mesma do BBB nefasto.
Aquelas pessoas que puxaram o tapete uma da outra, que conchavaram, que excluiram... depois: aos prantos, abraços, e tristezas diligentemente calculadas para as telas de TV, afinal, pega mal não dar uma choradinha, né? Mas o ritual da porta de saída é uma forma de redenção. Aliviam-se culpas. O que sai, "compreende", abraça as pessoas que o chutaram fora, as mesmas que vertem umas lágrimas para as câmeras e assim buscam inocências. Que em geral são concedidas.
O paredão do BBB ensina: Não tem lugar pra todo mundo. Você tem que excluir o seu igual. Ele não é seu irmão, é seu concorrente. Elimine-o! E isso se transfere para o dia a dia, não tenham dúvida. Tempos neoliberais, crise ascendente, empregos que morrem. A luta pela sobrevivência é selva. Somos predadores. Necessário atacar. Atacar é sobreviver. Sobram os mais aptos. Ou... os que melhor "jogarem o jogo". E vira tudo um jogo: no amor, na vida, no trabalho! Gente jogando pra platéia. Trabalhando pra ser visto... amando por conveniência...
Aos que vencerem, o milhão, o topo, as capas de revistas, quem sabe, as novelas!!! Aos que perderem, a triste insígnia na biografia: "ex-BBB"!!!! Já garante umas idas nos programas periféricos dos canais concorrentes da matriz global.
Orwell falava, na sua grande crítica ao stalinismo, descrita na obra "1984", de um Big Brother em que um totalitarismo controlava cada passo e respiro de seus súditos. As pessoas eram vigiadas o tempo todo. O Big Brother da TV Globo, uma franquia do original, nascido em 1999, na Holanda, tenta passar às pessoas a impressão inversa, de que controlam algo. Afinal, acompanham, divertem-se, debatem, torcem e... votam!!! Ô tristeza essa, do voto que é confundido com participação, do voto que se vende como concessão de poder. Mas na verdade, o poder não é do espectador. Ele apenas fica ali, sendo adestrado, condicionado, e na hora que lhe é reservada, aperta um botão e produz o trabalho esperado. E ainda se orgulha de ter eliminado o fulano ou o sicrano, ou de ter sido decisivo na vitória do "Alemão do BBB"! Vejam: No Big Brother de Orwell o espectador era o governo, embora o cidadão controlado assistisse aos discursos e normas transmitidas pela TV da ditadura. Agora, a ilusão é de que "o governo" são os espectadores, que decidem futuros, milhões, capas da Playboy.
E o que acontece na Casa do BBB, acontece na Casa Brasil. Tudo mais acentuado agora, neste tempos de jornalismo espetáculo e de campanhas políticas de sabonete e margarina. Fica o eleitor ali, acompanhando a novelinha política e na hora "h", vai lá, põe seu voto na urna. Depois esquece. Iludido, acha que já "participou".
Devíamos observar o Big Brother pela ótica da Constituição Federal, cujo preâmbulo e primeiros artigos apontam para a sociedade brasileira o caminho da fraternidade, da ética, da inclusão, da erradicação da pobreza e da cidadania. E, mais, pela ótica específica do Art. 221 da Carta Maior, que exige da emissoras de rádio e televisão a preferência pelas programações educativas, artísticas, culturais e informativas, a promoção da cultura nacional e regional, o estímulo à produção independente e regional e, por último, mas garantia maior importância: o "respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família".
Um programa que faz acompanhar dramas artificiais mal interpretados, deixando esquecidos os dramas reais que moram do lado de fora da porta, não pode fazer bem à psique de uma sociedade. Um programa que consagra o jeitinho, a esperteza e o "jogo", não pode fazer bem à construção dos valores de jovens. Um programa que consagra a valorização da mulher pelas carnes que possa mostrar sem pudor, não ajuda à definição do papel feminino na cabeça de nossos adolescentes.
Hoje vemos, nas escolas brasileiras, tanto essa ética da exclusão, quando esse sexismo, respondendo à chamada, diariamente. Resultado: indisciplina, violência, bullying, episódios sexuais cada vez mais frequentes. O que se aprende na escola vai para a vida, não? Por isso, uma rusga de balcão de boate vira briga campal e logo, assassinato. Meninas que aprenderam que rebolar para as câmeras é um caminho para o sucesso, buscam ser misses, modelos, e acabam desviadas para a prostituição infanto-juvenil.
O que defendo, então? Censura? Claro que não! Defendo e clamo pela responsabilidade de governo e emissoras de TV, para que cumpram a Constituição. Se dão o veneno, que dêem o antídoto! E o antídoto para o BBB não é a Favorita, convenhamos. O antídoto está lá, na Constituição: educação, cultura, regionalização, valores! Essa história de "dar ao público o que ele quer" é conversa de publicitário. O que o público quer não é o que dá mais ibope. O que o público quer é o que a Constituição definiu. Se você começar a exibir execuções reais pela TV, haverá público. Para pornografia também. Até para as coisas indizíveis, público haverá. Não faz muito tempo, antes da mancada do Gugu com a falsa entrevista com atores disfarçados de líderes do PCC, a disputa Faustão x Gugu era um lixo. E a audiência, ávida, atrás da baixaria maior.
A Constituição não admite a baixaria. Pelo menos não num veículo de utilidade pública, que deve ser usado para o bem comum e para cumprimento dos objetivos do Estado brasileiro.
Logo, concluindo, o Big Brother, ao divulgar a ética da exclusão, ao privilegiar a mulher-objeto, ao indicar que "pelo jogo" vale tudo, ao ajudar a alimentar a alienação da população com a sedução da ilusória participação telefônica, não ajuda, nesta quadra perigosa da vida nacional, não ajuda na formação de um povo consciente e cidadão. Com o histórico de formação do povo brasileiro, de consolidação do sincretismo de tantas hipocrisias, de edificação do "jeitinho" como modo de sobrevivência, estimular a alienação e incentivar a secundarização da boa fé, o "bom-mocismo" de circunstância, parece ser jogar pólvora no incêndio. Com o carvão que resulta, se escreve num retalho de Constituição que sobra do fogo: -Uma nação alienada, big-brotherizada, não sustenta um Estado de Direito.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 09h10
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O LIBERTÁRIO SILÊNCIO DO BOLA CHEIA

É horrível a falsa espontaneidade imposta pela TV ao vivo, quando famílias de competidores - de qualquer coisa, do nefasto big brother a qualquer torneio de gamão, jogo da velha, copa do mundo, ou porrinha - são reunidas na sala de suas casas, como bichos num zôo. Câmeras são dispostas estrategicamente para colher lágrimas, sorrisos, braços se agitando...
Daí, um apresentador idiota e bueno pergunta: "cadê a animação da família X?" E o pessoal se sente obrigado a espernear, sacudir os braços tresloucadamente, ter reações de eletricidade imposta, de alegria postiça, pelo tempo em que durar o "take"!
Talvez a coisa só piore quando, naquele assunto emocionante ou chocante, o repórter força uma lágrima e o câmera ajusta o foco pra arrancar a preciosa pérola garantidora de audiências estúpidas, e fica lá, na tocaia... aguardando o olho derramar a preciosidade... E o pior... a pessoa entrevistada ou dá um jeito de cuspir uma agüinha do olho, ou se sente culpada por frustrar toda uma audiência, que torce pela constrangedora gota de pranto inautêntico.
Será que a gente esquece que existe choro seco, choro calado, choro interno... como também alegria que chora, gente que comemora sem braços, gente que comemora em silêncios... Por que temos que agir como fantoches midiáticos, manipulados por cordéis eletrônicos?
Penso em pobres gentes como o Veríssimo, o grande escritor e indomável tímido, que já foi ao Jô - um talk show! - para ficar em silêncio. Penso em Tom Waits, o bardo genial, que certa vez conseguiu ficar mudo e indisposto mesmo diante dos olhos maravilhosos da entrevistadora Bruna Lombardi. Penso em pessoas que têm vergonha até de parabéns-prá-você... e que têm seus direitos, cacêta!!!
Não sei, se nestes tempos de "sorria, você está sendo filmado" ainda conseguiremos ser algum dia verdadeiramente espontâneos... em nossos silêncios ou nossas alegrias.
Melecas ficarão nos narizes empedrando, porque... você está sendo filmado... Daquela ajeitada na franja, a moça recuará, da mesma forma que daquele torcer de lábios no avesso que quase engole a própria boca pra ajeitar o batom... afinal, ninguém quer parecer maluco na frente das câmeras... Por isso, sorrisos serão vendidos em lojas de silicones e teremos todos uma forma qualquer de photoshop portátil, um botox de bolso, que garanta o sorriso exigido, pela Globo ou pela câmera do elevador. Lágrimas estarão muito disponíveis em adesivos muito realistas, em 03 dimensões, ou em cristaizinhos chineses, ou em colírios adequados...
Por outro lado, cada vez mais gente plantará bananeiras, mostrará peitos e bundas, pendurará melancias em brincos... afinal, aparecer na telinha tornou-se uma forma autônoma de existência, de concessão de sentido ao nosso cotidiano obscuro...
Os quinze minutos de fama reduziram-se... a quinze segundos, o importante é que: "Galvão, filma nóis!"... patéticos apelos, gente que se transforma em ridículos outdoors da Globo, ou da Band, porque assim arruma uma fugaz existência, na tela... da TV! Gente que se submete a ser agredida pelos CQC's, a ser transformada em esboços de gente pelos Pânicos na TV, porque aparecer na TV é necessário, oh céus!
Por isso é que, ontem, na Globo, vivemos um momento histórico e glorioso!
Na eleição do "bola cheia" do Fantástico, ganhou Diguinho, um menino paulista. Tava ele lá, com aquela galera que tem que se esfuziar na hora em que a Globo agenda... Daí, sai o resultado, ele comemora (sinceramente), como qualquer moleque da idade dele, o pessoal em volta dele também... mas daí, a coisa pára, os moleques queriam era ir jogar uma pelada ou comer uns cachorros quentes, mas a Globo queria esticar a coisa, e de repente, o Tadeu Schimidt pergunta ao guri: "E aí, Diguinho, o que você gostaria de dizer ao Brasil agora, que você é o Bola Cheia de 2008?"... E o Diguinho, ao vivo, no Fantástico, em horário nobre na Globo... simplesmente diz, com todas as letras: "Eu não quero dizer nada não." E ponto final! Não queria, não ia inventar, e não disse!!!! Desafiando, com sua impetuosidade juvenil a opressão da sambadinha encomendada, das palavras virtuosas decoradas, das emoções fabricadas, da alegria com hora certa pra entrar no ar.
Além de o Diguinho ter feito um golaço (no lance que lhe deu a vitória, ele jogava como convidado, molequinho no meio de uma pelada de marmanjos), virou meu ídolo libertário!!! Até que enfim alguém ousou desafiar a ditadura fantástica e global!
Um ser humano autêntico surgiu no Brasil, viva!!!
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 10h42
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DILÚVIOS

Dilúvios humilham certezas humanas, porque viram lama. Dilúvios acendem esperanças humanas, porque solidariedades são barcas.
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Há tempos Noé vem avisando: olha o aquecimento global, olha Maldivas sumindo do mapa, olha aquele teu carro a diesel, olha aquela ida desnecessariamente motorizada à padaria da esquina pra comprar pão, olha aquele chuveiro aberto só pra ouvir o barulho da água... Mas ninguém costuma ouvir Noés, porque quando predicam, geralmente tá dando praia...
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O inesperado é uma certeza. Olhando bem, todo mundo já sofreu um dilúvio algum dia. Conheço gente que bebe dilúvios no jantar... e mesmo assim, é gente que não ousa parar de cantar.
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Vi um homem, em Rio Bonito, dois terços do corpo debaixo de pedra dura e terras moles... Ali, com seu braço pra fora, a cabeça na lama, aquele homem, sem poder sair. Um acidente. Duro é ver gente que se embrulha na coberta das lamas e na colcha das pedras, gente que busca a desgraça, no dia a dia... em ressentimentos que criam como animaizinhos, alimentando-os a colherinhas de rancor desnecessário... gente que sai atrás de alívios químicos, paraísos de crepom e neón... Gente que se afunda em traições insanas, em tradições insensatas, em espertezas torpes, em mentiras vidas... Amanhã, com as pernas presas, embaixo da pedra, reclamam... Pior que não há bombeiro que salve quem a si próprio decidiu naufragar...
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Não há irmandade maior do que a dos homens miseráveis, dos que perderam tudo. Ali, alojados em colchonetes no chão dos ginásios, comendo sopa doada, usando roupas usadas, aprendendo o sorriso dos que não têm nada e mesmo assim, cantam. Lêem o Livro de Jó. Uma riqueza assim, devíamos almejar. Sei que somos fracos para desejar tanto. Nem todo mundo é Diógenes, e pode viver sábio, festivo e iracundo, tendo como morada, um barril de nada. Nem todo mundo é apóstolo e pode dormir sobre pedras e comer o que Deus faz chover do céu. Nem todo mundo é Francisco de Assis. Mas não precisamos querer ser o George Soros ou o Geroge Bush da esquina. Isso já ajudava.
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Quando os morros derretem como em Santa Catarina, quando as pedras rolam como cometas terrestres, arrastando matas, soterrando casas... quando casas desmoronam como se fossem de fósforo ou cartas, em horas assim, precisamos refundar os alicerces da nossa vida. Perder vaidades. Aprender grandiosidades que moram no simples. O melhor de um homem não está na veste que o cobre nem na casa que o veste. O melhor de um homem é o que mora nele. Nestas horas é que gente oca se perde.
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Horas assim ensinam também como somos cruéis... Como podemos saquear casas alheias, supermercados... movidos por maldade? Movidos por desespero? Nestas horas, conhecemos as pessoas. É fácil ser correto em tempos de paz, é fácil ser tranquilo na bonança. Forte é o homem que, mesmo que haja dilúvio, devolve a bóia que ao outro pertence.
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Senhor, coloca sol nos corações daquelas pessoas em Santa Catarina. Que as águas violentas não o apaguem. Que renasçam mais fortes, da tragédia. Que o estado se reconstrua, e que as pessoas se aprendam em estado de reconstrução contínua. É viver movente, nômade, este o viver difícil, mas o único sábio.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 10h07
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OBAMA
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Era uma vez um negro numa latrina, um negro ajoelhado na poça do próprio sangue, um negro com as marcas de tortura da Ku-Klux-Klan... Seu bisavô viera em ferros num tumbeiro, entre fezes e podridão dos corpos mortos ao lado. Seu avô trabalhara no algodão, cantando suas dores em spirituals e blues. Seu pai, um dia viu os negros marchando com Luther King, e resolveu marchar... Num tempo em que até olhar para um branco podia ser crime ou razão pra tortura, aquele negro viu King orar pelo sonho. Usou suas muletas, porque seus pés estavam feridos. Hoje aquele negro está velhinho, tuberculoso e arqueado, não pode mais sair de casa. Mas quando seu filho negro saiu pra votar ontem, numa seção do Harlem, levou as tintas do seu sangue, levou os gritos da sua alma, levou os calos das suas mãos, levou as lágrimas de seus spirituals, as saudades dos seus blues, levou na carteira uma foto de King. O jovem negro foi. Mas quinhentos anos de história foram com ele. Na seção eleitoral, a caneta tinha muitas mãos. Os gemidos de outras eras, ali, eram orgulho e alegria. O jovem cravou Obama. Quando voltou à casa, contou, entre lágrimas, sua aventura na história. O pai, sorriu. Então fechou os olhos, e se foi.
Não sei se dará certo, não sei se fará todas as diferenças positivas que se esperam. É expectativa demais sobre um só homem. Mas um papel essa eleição cumpriu. Mostrou a vitória do sonho de Luther King. O pastor batista, com sua fé, seu destemor, sua oração. King e sua lição de perseverança, com seu sangue regou as sementes da esperança de todos os negros. O síbolo serve não só aos Estados Unidos. Serve ao Brasil. Serve ao mundo, como vimos. Houve fogueiras de festa no Quênia. Espero que os meninos do CRIAM, a quem tenho contado essas histórias, tenham assistido à TV. Amanhã falaremos disso, novamente. Sonhos se realizam. Importa é estar disposto a pagar as dores da semeadura.
Que Deus abençoe Obama. Não me iludo com mudanças radicais, transformações de água em vinho. Mas agradeço ao símbolo, ainda precisamos de símbolos. Todos sabem como acho péssimo o governo Lula, do ponto de vista do que se esperava e não fez. Muitos sabem que não votei nele, depois de tantos anos de militância de esquerda. É que não queria que sequestrasse meus sonhos, como fez com os de tantos, reféns de um projeto mudado, que não era aquele em que se tinham engajado. Mas é claro que um ex-torneiro-mecânico, retirante, que fala "probrema", é um signo e oferece alguma forma de esperança. Fica bem à biografia do país e da humanidade. Símbolos. Nos ajudam a caminhar. Não deixam de ser pedaços de aurora.
Espero que os americanos lembrem de onde tudo começou. Começou com um culto na igreja batista onde Rosa Parks foi motivo para oa organização do boicote dos ônibus que discriminavam negros. Começou com joelhos no chão, pedindo forças a Deus. Que assim continue.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 08h48
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UM CONFORTO

Nesta hora difícil, nada melhor que cultivar a esperança. De horas assim, nascem diamantes na vida. Por isso, pra aliviar o peso do post anterior, segue o link do maravilhoso coral de crianças de Uganda, o Watoto Childrens Choir, que é um dos favoritos no meu orkut. Assim é que se louva a Deus. Deliciem-se.
http://www.youtube.com/watch?v=Rt5yb-xvTck
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 10h19
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JEREMIAS, GREENSPAN E WALL STREET
* *
Há quase vinte anos atrás, ruiu o Muro de Berlim. Hoje, rui o Muro da Rua do Muro (Wall Street). O socialismo fajuto esfarelou-se e soltaram-se os cães selvagens do neo-liberalismo. Cai Wall Street, e as capitalistas matilhas do inferno econômico sobem de suas trevas à superfície.
Vem o pânico das bolsas e dos governos. Gordon Brown, o primeiro ministro inglês, que há uma semana era o Moisés da crise, ontem anuncia que não, não vai dar pra atravessar o Mar Vermelho, a recessão virá. O capitalismo recua da privataria selvagem, e estatiza o prejuízo. Eles ganharam, ganharam ilicitamente, ganharam descaradamente, à mão grande nos roubaram, e quando vem um soluço de perda, se agarram ao que nos restava... um pedacinho de Estado... Mínimo, como eles queriam... que mal consegue pagar umas pensões magras e botar uns médicos pra atender filas etíopes no SUS. O cruel é que não vem agora o Estado como elemento de estabelecer a igualdade, disciplinando a baderna, impedindo a orgia, com instituições reguladoras da produção, com investimentos saudáveis no bem com comum. Não. O Estado é chamado pra preservação do mesmo sistema injusto e excludente forjado pelo capitalismo selvagem, fazendo-lhe os remendos pra que a exploração continue.
Muita gente achava que a Economia era uma ciência. Muita gente achava que eles sabiam o que faziam, quando permitiram lucros indecentes para alguns, à custa do futuro de tantos. As florestas destruídas, os mares tornados esgotos, as escolas de nossos filhos, acabadas, a nossa saúde roubada, os empregos inexistentes, tudo foi reunido no saque e colocado nas fortunas da meia dúzia que sequestrou o mundo pra si.
Com uma arma na cabeça do mundo, nos sequestraram, como Lindenberg fez com Eloá. Nos queriam escravos do sistema, trancados num apê de Santo André, à mercê dos seus caprichos egoístas e sujos. E agora, chega Greenspan, o até há pouco todo poderoso czar do FED, pra dizer que: “Pô... errei... foi mal... Devia ter feito um controle melhorzinho... é que eu achei que protegendo os interesses dos bancos e empresas estava protegendo a sociedade...”. Rá! Dá prá ter um ataque de cólera, vendo o mau caratismo assumindo assim a infantilidade da arrogância de ontem! Por isso desconfio sempre de ciências de verdades absolutas. Plutão é planeta ou não é planeta? Gema de ovo faz mal ou faz bem? “Verdades” são compradas à ciência, conforme o interesse do freguês e a conveniência da ocasião.
As notícias se sucedem... Arregalam os olhos aflitos banqueiros da Av Paulista, camelôs da Cinelândia e favelados de Brasilândia. A crise não deixa ninguém em paz. Empregos ameaçados. Sonhos adiados. A febre subindo. A sensação de susto e vazio.
À margem de tudo, meninos e meninas correndo pelas ruas, cheirando cola, se prostituindo, se reproduzindo, se matando... À margem de tudo, nascem crianças, que receberão a ruína de herança.
Como já disse, o capitalismo é uma hidra, tem muitas cabeças e muitos fôlegos... renascerá, possivelmente mais excludente, possivelmente menor, e com uns confortos magros. Sopa pros pobres necessários aos sistema (sempre precisarão de quem lhes lave os banheiros). À barbárie, os restantes (Rosa Luxemburgo avisara: Socialismo ou barbárie!). Agora, gente morando no lixo, comendo lixo. Áfricas morrendo a míngua, esfaqueando-se nos desertos da solidão.
Isso me lembra o Israel bíblico em festa e grandeza, descuidado das leis divinas. Jeremias pregava seus alertas e era preso, ridicularizado, esmagado... afinal, quem quer ouvir a voz da tragédia anunciada, quando ainda é festa, quem quer sensatez quando impera a loucura? Quem quer cerceamentos ao prazer quando impera o egoísmo? Quem quer ouvir alertas de tsunami quando está nas praias do verão das orgias? Mas Jeremias falava, corajosamente, explicava:
“A tua habitação está no meio do engano; / pelo engano recusam conhecer-me, diz o SENHOR. (...)/ Por que razão pereceu a terra, e se queimou como deserto, sem que ninguém passa por ela?/ E disse o SENHOR: Porque deixaram a minha lei, que pus perante eles,/e não deram ouvidos à minha voz, nem andaram nela. (...)/ Portanto assim diz o SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel:/ Eis que darei de comer losna (uma planta amarga) a este povo,/ e lhe darei a beber água de fel./ E os espalharei entre gentios, que não conheceram, nem eles nem seus pais,/ e mandarei a espada após eles, até que venha a consumi-los./ Assim diz o SENHOR dos Exércitos:/ Considerai, e chamai carpideiras que venham;/ e mandai procurar mulheres hábeis, para que venham./ E se apressem, e levantem o seu lamento sobre nós;/ e desfaçam-se em lágrimas os nossos olhos,/ e as nossas pálpebras destilem águas./ Porque uma voz de pranto se ouviu de Sião:/ Como estamos arruinados!/ Estamos mui envergonhados, porque deixamos a terra,/ e por terem eles lançado fora as nossas moradas./ Ouvi, pois, vós, mulheres, a palavra do SENHOR,/ e os vossos ouvidos recebam a palavra da sua boca;/ e ensinai o pranto a vossas filhas,/ e cada uma à sua vizinha a lamentação;/ Porque a morte subiu pelas nossas janelas,/ e entrou em nossos palácios,/ para exterminar as crianças das ruas e os jovens das praças./ Fala: Assim diz o SENHOR:/ Até os cadáveres dos homens jazerão como esterco sobre a face do campo,/ e como gavela atrás do segador, e não há quem a recolha.;/
Mas o profeta não é só apocalíptico. Não só aponta os erros e as consequências. Mostra como produzir o acerti e a salvação.São lições de humildade. O homem reconhecer sua miudeza e perceber o infinito, o divino, o sagrado.
Assim diz o SENHOR:/ Não se glorie o sábio na sua sabedoria,/nem se glorie o forte na sua força; / não se glorie o rico nas suas riquezas,/Mas o que se gloriar, glorie- se nisto:/ em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR,/ que faço beneficência, juízo e justiça na terra;/ porque destas coisas me agrado,/ diz o SENHOR."
(Trechos do capítulo 9 de Jeremias)
. A necessidade de resgate do sagrado é um dos temas discutidos em filosofia. O resgate de áreas de interdição necessárias. A vida, como elemento intocável e valor supremo. A maternidade. A família. A criança. A natureza. O meio ambiente. A solidariedade. A consciência de coletivo, de que não viajamos sós nessa nave planetária, como Leonardo Boff chama a Terra.
Com tais posturas, não precisamos temer. A humildade é o caminho, não da rendição, mas da grandeza. Ainda é tempo de semar a vitória. No húmus, aquela coisa depositada no chão das fertilidades, terra, adubo, pobreza, modéstia... no húmus é que se fortalece a raiz que amanhã dará frutos.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 10h08
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ÄGOSTINHO VAI À LUTA

Pedro Cardoso, o grande ator que faz o atrapalhado Agostinho da Grande Família, marcou um gol de placa! Foi no Festival de Cinema do Rio, na semana passada. Na apresentação do filme de Domingos de Oliveira, “Todo mundo tem problemas sexuais”, que produziu e em que atuou, apresentou um manifesto lúcido, corajoso e severo contra a pornografia reinante em todos as produções audiovisuais do mundo e do Brasil, em particular. Denunciou, por detrás das supostas “experiências artísticas”, “necessárias à narrativa”, a exploração da exposição nada sutil do corpo dos atores e atrizes, basicamente para satisfação da libido desmedida de diretores. Chegou a narrar os constrangimentos pelos quais passam atrizes novatas e sérias, constrangidas a cenas gratuitas. Acusou diretores de realizarem sessões privé com amigos para assistirem trechos picantes obtidos de atrizes novatas (corre que, neste ponto, a acusação seria contra Selton Mello, que estreou seu primeiro filme, onde atua a mulher de Cardoso).
O “Agostinho” falou e disse, amigos. Assista a um Hitchcock, um Woody Allen, ou (como diz Pedro Cardoso) a um Truffaut, e veja a economia, ou melhor, a ausência do explícito. A sugestão basta, se é necessário demonstrar que houve ou haverá sexo: luzes se apagam, corpos se enlaçam ainda semivestidos, uma mão cai para o lado, apaga-se uma luz... e pronto. Sabe-se o que houve. Afora a desnecessidade, representações de sexo em audiovisual são sempre ridículas e canhestras. O constrangimento inegável, os corpos se mexendo mecânicamente como batedeiras Britânia, por vezes a vã tentativa de segurar um lençol entre os corpos, os gemidos fake...
Sutileza bastaria. Lembram da cena mais sexy do cinema, de Rita Hayworth em “Gilda”, onde ela apenas despe... uma luva?
E não me venham com discursos de que “essa discussão está superada”, é “atraso”, ou “Pedro Cardoso não deve estar satisfeito com o próprio corpo”, e coisas do gênero!!! O grande ator seguiu o trilho da defesa da integridade da interpretação do artista e do respeito a este, como pessoa. Mas há mais. Essa licenciosidade em que as novelas, por exemplo, mergulharam - atendendo a interesses comerciais, para segurarem-se na disputa da audiência, que se torna mais selvagem entre canais abertos e mais competitiva entre TV aberta e canais pagos - torna a sala dos nossos lares verdadeiros palcos de "puteiro" (com perdão da má palavra). Você levaria seus filhos de oito ou nove anos pra ver uma “pole dance” ou uma “lap dance” num inferninho em Copa? Você levaria suas filhas de 05 anos pra se entrevistarem com a Bebel no calçadão da meia-noite, e pegarem umas dicas de maquiagem? Você deixaria que aquele triângulo amoroso entre 02 gays e uma mulher se realizasse no colchão do seu quarto? Não, você não deixaria! Mas você deixa!!! Porque é isso o que a TV vomita sobre as mentes indenes das famílias brasileiras.
Depois não venham me perguntar porque a sua filha de 11 anos engravidou! Depois não venham me dizer que os meninos de 07 anos estão agarrando menininhas de cinco na escola! Rá! Eu te respondo: Abra os olhos enquanto é tempo! Essa Babel-Babilônia-Babaca em que o mundo está se tornando é uma devoradora de inocências. Inocência, esse momento crisálida que os novos costumes arrebentam, liberando borboletas aleijadas, de pouco vôo. É que mentes se estragam. A libido se torna precoce. O contato visual não entendido com a sexualidade precoce provoca a precocidade da explosão hormonal e de apetites que seriam contidos até mais tarde. Mas não! Muitas meninas de 09 já produzem feromônios. Aí, uma das causas da pedofilia!
“Ah, que moralismo barato”... alguém dirá. Meu amigo, chafurdamos numa lama moral sem par. Você está aí, com a boca cheia desse estrago, embriagado com esse mundo de neón, tela de LCD, monitores e i-pods e não enxerga. Garotos começam a tentar reproduzir com as namoradas as cenas pornográficas a que assistem, se masturbando nas madrugadas. E meninas cedem, e como não ficam satisfeitas com o sexo precário em que foram coisificadas, tornam-se vorazes, tentando compensar em quantidade a qualidade que não há, coisificando também seus parceiros.
E não falta é estímulo. Sexo virou insumo de produção, para qualquer audiovisual. É o pó de pirlimpimpim da publicidade. É o molho de qualquer anúncio. E é tão forte, porque fisga apetites primais, de sobrevivência, animalescos e essenciais à preservação da espécie. Por aí, a juventude é fisgada. Por aí, em tempos de viagra, idosos são fisgados a um apetite que não realizam com as próprias esposas, numa idade em que o outono dos corpos aconselha o comedimento do respeito aos ciclos normais da vida. Mas não, o sexo é vendido como a única chave para a felicidade. E isso numa visão consumista, pois o sexo tem que ser urgente, rápido e descartável, pra dar lugar a uma nova aventura.
Não sou um puro, um moralista, mas tenho náuseas quando vejo pais permitindo, estimulando, criancinhas a reproduzirem a “dança do créu”, a posarem de mulher melancia e coisas do gênero. Parece um mundo de loucos, que não conseguem somar dois mais dois pra ver como é que se constrói o "quatro" da desgraça. Não conseguem ver que plantaram raízes no inferno, e agora reclamam dos frutos.
Pois bem. Pedro Cardoso subiu no meu conceito. Dizer o que disse, no ambiente em que disse, com a força que disse, foi um ato de coragem . Colegas, obviamente, o criticam, metem o malho, etc. Mas “Agostinho” prestou um grande serviço à “grande família” brasileira que ainda se quer digna deste nome.
*.*.*
Acesse o manifesto de Pedro Cardoso no blog criado por ele para o filme: em http://todomundotemproblemassexuais.zip.net/arch2008-10-05_2008-10-11.html#2008_10-09_10_40_01-5758122-0
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 10h00
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COMENTANDO O JÁ COMENTADO

POLÍTICA E PICHAÇÃO. Recebi críticas por conta de post anterior, no qual relatei peripécias políticas que incluíam... ("pasmem, o cara [eu] trabalha em Vara da Infância!!!")... pichação! Vejam. Naquele texto, estamos falando de ditadura militar, ainda que ao fim. Isso ainda significava repressão policial, prisões, provocação, intimidação armada, apreensão de material, impedimento de reuniões, e outras coisas. Sobrava pouco espaço para nos expressarmos. Pichávamos, sim, cuidando de não danificar prédios públicos, muito menos, residências. Havia tapumes, colunas de pontes ou viadutos, pedras de encosta, muros de terrenos. Por aí íamos. Como ia o célebre Gilson do Giz, o poeta dos tapumes do metrô do Rio. Como ia Gentileza, o profeta artista, que teve sua obra preservada em epístolas nos pilares da Perimetral, também no Rio. Não que fôssemos artistas. Mas uma palavra em defesa da luta e da esperança, em tempos de vozes caladas, era muito. Muitas vezes os muros falavam por nós. Muitas vezes um trabalhador humilde via seu grito pintado na pedra e ia pro trabalho, mais confortado.
Outro ponto. A pichação de hoje não traz esperanças ou bons agouros. É uma exposição do ego e uma competição infame de alturas maiores e arabescos mais sujos. A pichação de hoje não preserva nada. Quanto mais proibida a parede, quanto mais recente e translúcida a pintura, mais ousado se mostrará a seus pares o autor da sujeira. Descontada a necessidade de nova visão de política ambiental, e a necessidade que se teve de rever a pichação como estratégia de propaganda política, veja-se um retrato de juventudes distintas: uma que picha, com ideologias, seus sonhos, contra o terror. Outra que suja, sem ideologias, sua revolta egocêntrica em residências de inocentes. Ambos querem marcar seu lugar no mundo, expressar-se. É verdade. Mas o crime é, também, uma forma de expressão. Nada mais estético do que a “obra” de Bin Laden. Nem por isso, a aprovamos. Por isso, não aprovo, de formal alguma, qualquer pichação nos dias de hoje, que fique claro.
Ao contrário de alguns que transportam bandeiras vencidas e práticas datadas para os tempos de hoje (como os defensores da liberação das drogas), sem ver o perigo que isso representa, porque mudaram as circunstâncias, conheço o meu tempo e não cogito que hoje, se piche, nem um Salmo, nem mesmo a palavra esperança. Outros tempos, outros métodos.
*.*.*
SOBRE URNA E ESPERANÇAS. Censuraram também minha visão do processo eleitoral, que – afirmei, realmente - seria, digamos... como um balão de gás que infla, infla e rapidamente se esgota e murcha, na segunda-feira pós-eleição, pra só se encher no próximo encontro com as urnas. Tudo muito conveniente ao status quo. Vamos lá. Não quero tirar a esperança de quem quer que seja. Acho que Teresópolis, por exemplo, acabou construindo uma possibilidade de mudança muito positiva. Por aí foi o meu próprio voto. Isso se confirma pela taxa de renovação na Câmara, nunca vista. A cidade amanheceu, na 2ª feira, com outro clima. Entre o susto e o sorriso, uma espécie de “agora vai”. A maioria, quando menos, feliz com o enterro do passado desairoso. Mas mantenho o que escrevi. Até como alerta para que não pensemos que ninguém vai fazer por nós o que é nosso dever, nossa obrigação e... acima de tudo, nossa necessidade. Passada a euforia de alguns, que a militância da esperança se faça no cotidiano, independente de mandatos. Boas ações de bons mandatos serão conseqüência. Precisamos eleger a nós mesmos para o mandato do nosso próprio cotidiano, para a prefeitura da nossa própria vida. Vamos tirar nossa esperança da jaula da urna.
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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h08
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ELEIÇÃO DA ESPERANÇA

Há mil anos atrás sábados pré-eleição eram longos.
Depois de tanta caminhada, comício, carreata, cultivávamos a esperança, com nossas bandeiras cansadas, com nossos bottons improvisados, camisetas pintadas. Naquele tempo havia pichação (que feio!, olhando de hoje) e as fazíamos, contra ditadura e ladrões (que bacana!, olhando de hoje), e havia companheiros sempre prestes a emprestar o braço ao esforço (que lindo!!, principalmente, olhando de hoje!).
E havia um porquê nesse árduo fazer. Até porque a eleição era apenas um degrau, um passo, um item da caminhada. Eleição não era destino, não era praça. Só um ponto da estrada. Mas tanta dedicação ocorria porque a eleição era um acender lampiões pra seguir caminhada, independente do resultado (que na maioria das vezes, sequer era vitória). Mas continuávamos cultivando esperança em canteiros outros que não os eleitorais. Triste, hoje, ver que aprisionaram a esperança no ventre das urnas, sem chama. Daí não crescer esperança mais nos caminhos, na beira dos rios, no ventre das colinas. Um animal enjaulado, a esperança dentro da urna, pra ser exibida a cada quatro anos, adoçando as bocas. Logo depois, retorna ao cárcere. E as pessoas seguem, olhando pro próprio umbigo, com seus negócios, suas contas pra pagar, individualismos adestrados, exatamente como o sistema deseja e necessita.
Antes a esperança morava no colo da gente, como um mico, pendurado em nosso pescoço, nos alegrando no dia a dia, fazendo da militância um contínuo. Bom, eu... continuo! Ainda que sob outras bandeiras, prossigo. A tentativa agora é desmascarar esse espetáculo triste, quase circense, e mostrar que a esperança quer comer alpiste na mão da gente, quer pousar suas asas de joaninha na unha da gente, quer roçar seu pelo entre nossos calcanhares, quer ir pro trabalho em nosso peito, em nossos braços... daí as pessoas olham e percebem... lá vem, aquele que porta a esperança! Lá vem de novo, "aquele que gosta de complicar"!
Eu sei que hoje em dia parece coisa de maluco, mas eu porto a esperança. Ainda que mais quieto, ressabiado, com meus calos e machucados, pois as pedradas vieram, eu porto a esperança. Às vezes, como uma arma, em ambientes sombrios de inércia. Mas sempre, como um mico-leão dourado revolvendo meu cabelo. Assim, esquisito fico, já que seguem tantos, quase todos, tão penteados, conformados com essa esperança a crédito, em parcelas a perder de vista. A perder de vida.
Eu levo a esperança. Ou, ela me leva, pastora fiel desta ovelha de Deus. Porque Deus é mais que esperança. Certeza.
Por isso, voto amanhã. Mas é apenas um ponto da caminhada. Segunda-feira, a marcha prossegue. Você que também leva uma esperança, entenderá. Porque elegemos a esperança todo dia.
*.*.*
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 18h41
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O EXERCÍCIO CÍVICO

Votar é um exercício, uma maratona física, mais que cívica. Se não servir pra nada, ao menos o povo se mexe, exercita a paciência na fila, os ouvidos nos sussurros (ou tantas vezes, gritos) dos boqueiros de urna (proibidos que sempre existem), adestra o olho na mira do teclado, rola aquela certa competição pra ver quem digita mais rápido, desdenha-se (um pouco) dos velhinhos lentos. Ah, fala sério, saudável, é, quase como um bingão de domingo numa igreja. Tem gente que vai com a família, leva os filhos. Tem os que se encontram só de eleição em eleição, daí o reparam o novo cabelo, a ruga mais funda... velhinhos descobrem que perderam amigos que votavam há 30 anos na mesma seção... É um evento e tanto. Eu ainda preferia os tempos do voto escrito, riscado, safado, onde às vezes dava até pra votar no mendigo da esquina ou no macaco Tião. Mas, modernidades, fazer o quê.
Agora, e o resultado disso tudo? Lamento dizer, mas é pífio, porque de pouco adianta o voto sem a militância. Vale quase zero o voto sem a cobrança, a fiscalização, a celeuma diária, o debate no sindicato, na associação. A ágora grega, nesses tempos bicudos de individualismo e cada um pra si, faz falta. Até existem organizações, uns restos de partidos, uns ralos sindicatos, cacos de solidariedade rara, aqui e ali.
Triste a discussão de votar em quem rouba menos, ou em quem rouba mas faz, ou votar no ladrão de hoje pra evitar o de ontem, ou de votar no que ainda não roubou porque não teve chance... Triste votar no aspirante a edil que é amigo ou parente e “precisa tanto...”. Pior ainda votar em fulano porque “ele é de briga”, “vai lutar pela gente”... como se a gente não pudesse, a gente mesmo, lutar... Como se neste país de pais da pátria e pais dos pobres precisássemos sempre de um guia iluminado e genial.
O neoliberalismo alcançou sua vitória. Separou política de economia. O injusto sistema ficou inquestionável. Pensamento único. A história acabou, decretou Fukuyama. E a política segue assim, essa coisa desossada, gelatinosa, esse invertebrado sem dentes. Escolhemos síndicos de prédio, gerentes de loja, a isso se reduziu o poder político, tantas vezes.
Mas domingo, multidões cumprirão o ritual, tangidas pela obrigação, mas também pela mídia, pelo anestésico discurso dominante, pelo status quo, que revela o voto como a “arma”, a “chance de fazer alguma coisa”, a “nossa única possibilidade de mudar as coisas”. Daí, votamos, quase que como num concurso de misses, e vamos pra casa, dever cumprido. Na segunda-feira já, decepções. E ficamos no aguardo da próxima eleição, a “nossa única chance”... Enquanto isso, as falcatruas retornam, bancos quebram levando poupanças, créditos sobem os juros enforcando os humildes, mensalões financiam cassinos na beira do Lago Sul de Brasília... e tudo continua como está. O mesmo filme, com outros atores.
Não é que descreio do voto. É melhor que votemos do que alguém escolher qualquer coisa por nós. Mas não gosto de bolo que é só cobertura, vai ver, tá oco! Não gosto de casa que tem só telhado, lhe faltam paredes. Claro que, sem jeito, come-se a cobertura e mora-se na casa só teto. Ao desabrigo e com fome, não ficaremos. Mas verdadeiramente alimentados e abrigados, não estaremos.
Por isso perdoem-me os que tanto se esforçaram, que até militaram (!) nesta eleição. Perdoem-me os que escolheram seus candidatos com tanta reflexão. Perdoem-me porque vocês podem achar que desdenho do esforço de vocês. Não. Os admiro. É bom em tempos de deserto ver quem tenta plantar uma folhinha. Vocês são esperanças. Mas se militaram, sabem que são exceção. Há apatia de cordeiros, rebanhos que vão às urnas.
Mas precisamos casar, de novo, política e economia (saber que o assunto é grana, e jeitos de a produzir, sempre foi e sempre será). E, acima de tudo, precisamos casar de novo, política e esperança, política e utopia. Política solteira, política só descarrego de tensões sociais periódicas, é coisa estéril, frutos não dá.
Vi uma senhora idosa, com uma estrela do PT, abanando uma bandeira. Lembrei de quando costurava minhas próprias bandeiras, pintava as camisetas e saíamos com elas ainda meio molhadas, em passeatas e comícios. Depois tirávamos a camisa e tava lá, pintada na pele, aquela estrela. Aquela senhora estava na chuva fina, sacudindo a bandeira, com aquela triste estrela opaca, porque precisava da parca grana que aquilo representava. Poderia estar em outras campanhas, com outros signos, triste, atravessando placas enormes nos sinais das ruas... Tarefeiros pagos para exibir candidatos a um povo descrente...
Você, que deu o azar de ler isso antes de ir votar, não desanime! Vá. Mas observe as pessoas. Os papos rasteiros. A conversa curta. O civismo ensaiado, depois, as mesmas matérias na TV, mostrando o velhinho-exemplo de 85 anos, que foi votar e não precisava, a urna que viajou de canoa pelo Rio Amazonas, o Presidente que foi votar na cidade natal, os índios que votaram na tribo, essas coisas edificantes e edificadas como peças publicitárias, daquela que já foi chamada de “maior democracia do mundo”...
Vote, amigo. Se fez boas escolhas e nelas depositou esperanças, vote confiante e ajude a reconstruir a esperança. Se vai apenas cumprir obrigação, experimente pensar o quanto o Brasil precisa, mais do que do seu voto, da sua atividade constante, mudando o mundo a partir de onde você está. No trabalho, na família, na comunidade. E na cobrança ao seu candidato. Aí, sim, o seu voto vai ser conseqüente. Bons dígitos a todos. E que não chova, né?
Mas vote. Ao menos, é um bom exercício.
*.*.*
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 21h30
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O MAU CHEIRO DO FED

O FED (Federal Reserve, o Banco Central americano) saiu, de pires na mão, mendigando grana ao mundo pra salvar o sistema financeiro da falência. Um Bush depressivo e deprimente (o "lame duck" típico, "pato manco" como por lá chamam os presidentes em fim de mandato), aparece na TV, implorando de joelhos, já pela 6ª vez. Fez as guerras que fez, tomou as decisões desastradas que tomou. Usou o nome de Deus em vão!!! já que fez a guerra em nome de "deus", com muita negócio cinzento por detrás daquilo tudo. Agora, implora, como um miserável sem dignidade. A arrogância sempre mostra seus fundilhos sujos. É questão de tempo.
O FED saiu mundo afora, de pires na mão. Até ao Brasil, cfe Henrique Meirelles, pediram um troquinho!!!! É mais ou menos assim. Sabe aquelas caixinhas que se fazem no trabalho, na escola, pra festinhas de fim de ano, formaturas, essas coisas? Pois, então. O cara da caixinha simplesmente - sem consultar ninguém - resolve ir num cassino e jogar com o nosso suado dinheiro!!! Tem sempre a desculpa 'bem intencionada' de que assim a grana renderia mais do que na poupança, de que a festa ficaria melhor, com mais grana... Daí a caixinha quebra toda, estourada na roleta impiedosa, a festa fica ameaçada e o cara vem pedir socorro... adivinhem pra quem??? Prá nós, amigo! E, o pior, a gente dá a grana! E, pior ainda!!! Sequer trocamos o "administrador" da caixinha!!!!!
Mas, o FED saiu de pires na mão... Sabe esses nomes que se autodeclaram, dizem a que vieram só de pronunciarem-se? Pois bem, FED é isso mesmo... algo que "fede" e muito!!! Tanto assim que o poderoso chairman do FED incluiu no pacote uma cláusula pela qual ele não poderia ser processado por eventuais deslizes, falcatruas ou má gestão do pacote!!! Ora, convenhamos!!! É muita prepotência.
Mas o pior disso tudo é que "cabeças rolarão"!! E não serão as deles! Famílias sofrerão. E não serão as deles! Sabe o que acontecerá com os mentores da sacanagem hipotecária? Sobreviverão e serão contratados como consultores, com altos salários, em Wall Street ou na City londrina! Foi assim na bolha estourada das "pontocom" da Nasdaq, há uns 08, 10 anos!
E, aprendamos! Quem é o maior investidor em publicidade na TV? O sistema financeiro! Quem é, portanto, um dos responsáveis pela má qualidade do que a TV serve aos lares de famílias desavisadas? Os bancos, oras! E banco, como já disse Robert Frost, é aquele que nos dá um guarda-chuva quando faz sol, mas o arranca de nossas mãos quando começa a trovejar! Brecht dizia que crime mesmo, de verdade, não era assaltar um banco, mas fundar um banco!
Por isso é que sempre achei sacrílega a exposição do nome de Deus tanto nas notas do dinheiro brasileiro ("Deus seja louvado") quanto nas do americano ("In God we trust"). É como se carimbássemos nossa fé num poste-ídolo de Baal... ou então, se disséssemos: "O dinheiro é meu pastor e nada me faltará... deitar-me faz em verdes dólares... guia-me mansamente às fortunas tranquilas... " Sacrilégio! Mau-caratismo! Não há fé possível em cassinos.
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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 09h56
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DESABAFO À BEIRA DA RUA DO MURO

O pacote do governo americano foi rejeitado. As bolsas despencam.
Na verdade, desvela-se o nada. Multidões morreram por conta desse capital inflado como um balão de gás podre. Uma bolha de sabão de mau gosto. O capitalismo conta suas quebras, suas dores e tenta salvar seus ossos. Vem uma onda de estatizações emergenciais. Criam-se marcos regulatórios novos. O mercado, descobriram, não é educado nem domesticado. O mercado é selvagem e se alimenta do coração de crianças de colo. Ah, nisso, descobriram o Estado!!! Rá! Correram pro Estado de pires na mão, os mesmos que o destruíram, os mesmos que o fizeram mínimo, aquele, no qual colocaram presidentes fantoches, de quem arrancaram as verbas e poderes para ajudar os desvalidos... agora ajudará – com as desculpas de praxe – os jogadores do cassino. Pagará suas contas. Foi assim na bolha da Internet, na Nasdaq, há poucos anos atrás.
Enquanto a farra em Wall Street acontecia, quantas Ruandas não desceram pela sarjeta? Quantas crianças não morreram em convulsões na Cracolândia? Quantas meninas de 12 anos pariram infelizes desnutridos? Quantos desempregados não mergulharam na embriaguez? Enquanto isso, a “mão invisível do mercado” de Adam Smith manejava punhais de prata assassina. Fazia guerras, invadia países, multiplicava vergonhosos negócios. Guerra S/A!! (como no filme recente, com John Cusak)
Reengenharias, informatização em larga escala, guerras de petróleo, vampirização das pequenas empresas, terceirização de mão de obra em ocupações precárias, a onda de camelôs despejada nas grandes cidades, a pirataria decorrente, os roubos de carga, as meninas prostituindo-se nas estradas para caminhoneiros. A falência da saúde pública, a privatização do ensino, as escolas tornando-se celeiros de pólvora transbordando perto de faíscas. Jovens ali, contidos, ávidos viciados em consumo e fugacidade... Foi o que lhes injetaram nas veias. O leite que tomaram já vinha com o vírus. Hoje, querem seu lugar no paraíso da feira livre mundial, onde você vale pelo que compra.
Não nos enganemos. O lucro é um animal voraz, nunca se satisfaz. Os engravatados de Manhatan brincam, não com cotações ou balanços financeiros, naquela Las Vegas, as fichas são vidas humanas. Decidem, num botão, quantas cabeças serão decepadas pra fazer o calçamento das suas escadas em direção ao infinito lucro. Decidem, na verdade, quantos países serão mantidos no porão do navio negreiro. Ah, um Castro Alves que nos cantasse uma esperança!!!
Mas escadas assim batem no teto. Castelos de areia assim, desmoronam. O problema é que desmoronam sobre os mesmos que foram pisados pelos que os construíam. Enquanto isso, o planeta se esvai, corroído em suas águas, em seu ar, em suas matas, viciado em fumos terríveis, dependente químico de petróleos, esburacando a própria carne pra arrancar seus minérios como quem arrancasse pedaços do próprio fígado, do pulmão, com as mãos. Um mundo de suicidas cegos. Caminhando para o abismo, não vemos estrelas, mas letreiros de shoppings e marcas nos iluminam o triste caminho. Perdemos a voz, a conversa ao pé do fogo, o almoço de domingo e os amigos. Temos encontros virtuais, prazeres rápidos, queremos ‘tudo ao mesmo tempo, agora’, não?
Depois, ficamos atordoados, vendo nossos filhos se matarem pelas ruas, nas esquinas, nas escolas. Deus passa a ser um animal doméstico, que chamamos do jeito que queremos, na hora em que queremos, como um periquito que nos atende à voz, como uma foca que equilibra bolas ao nosso comando. O sagrado não mais existe. Por isso, nada é sagrado. Nem a vida humana. Seja velha ou enferma, seja embrião, se não consome... vida não é. Sagrado é o que consome. O que vale dinheiro.
A publicidade pinta, enquanto isso, uma cortina lilás com frisos dourados e perfumes de jasmim... Ah como é belo o mundo da publicidade, essa prostituta velha, cafetina de valores! Essa, que vende venenos que nos matam, que entorpecem nossas crianças, que nos adestram desde o berço como consumidores. Essa, que nos carimba como peixes fisgados, como gado marcado, na roda sem fim da sociedade supérflua.
A festa acabou. Por enquanto. O capitalismo tem muitas pernas. Gato assassino de muitos fôlegos. O capitalismo morreu! Viva o capitalismo! Ele se reerguerá, com novos atores recitando os mesmos papéis, adequados ao novo cenário, com um ou dois gramas a mais de presença estatal e gerência financeira governamental. Como sempre, a ruína de uns fará a glória de outros. Recolherão o lixo e colocarão pra baixo do tapete. Até a próxima crise. Foi assim em 1929, em 1982, em 1988. E Wall Street, a “Rua do Muro” (Perdoem-me: Wikipédia: “Lá, os holandeses tinham construído uma parede da madeira e lama em 1652. A parede significou uma defesa de encontro ao ataque possível dos índios de Lenape, de colonizadores da Nova Inglaterra e dos Ingleses, mas no fato foi usada manter os escravos negros da colônia”), construída outrora para afastar índios incômodos, ali, onde batem os suspiros dos miseráveis, renascerá, ainda que em outro endereço, mouca como sempre, olímpica como sempre, pronta pra arregimentar uma nova geração de maldades.
O que fazer?
Recuperemos o sagrado. O valor das coisas gloriosas, porque simples. Pessoas que não sejam cartões de crédito, cujos corações não sejam calculadoras. Um Deus que não seja um periquito.
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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h50
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